sábado, junho 19, 2021
Temporada 01 episodio 01
3.5/5

Padre Evaldo Souza

Somos Templos do Espírito Santo

Temporada 01 - Episódio 1

Olá. Devo me apresentar brevemente, afinal, se tudo correr bem, teremos um encontro mensal aqui no Católico VIP News. Meu nome é Evaldo César de Souza, sou padre religioso, missionário redentorista, tenho 17 anos de ordenação. Completei 44 anos nesse ano (2021) e entre as muitas coisas que faço com prazer, além das minhas obrigações sacerdotais, prioridades absolutas, estão os trabalhos de evangelização pelas comunicações sociais e o gosto pelas atividades físicas.

 

 Aliás, foram essas duas últimas informações que fizeram com que o Católicos Vip NEWS me procurasse com um desafio interessante: propor uma reflexão que inspire mais e mais pessoas a descobrirem que não existe nenhum hiato entre cuidar do corpo e do espírito, zelar pela salvação da alma e respeitar as belezas da matéria, modo pelo qual podemos prestar louvores ao Senhor. 

 

Assim, aceitei a tarefa de construir doze reflexões que nos ajudem a buscar aquela integridade que era tão importante para Jesus Cristo, que “crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52), ou seja, conjugava o equilíbrio entre mente, corpo e espírito, como forma de garantir uma vida íntegra e producente.

 

Comecei a entender a importância de unir saúde espiritual, mental e corporal já no tempo em que fazia minha faculdade de filosofia. Entre as apostilas e livros que me excitavam o pensamento, vivia também a alegria da inserção pastoral e espiritual no meio do povo e no seminário. Mas havia um espécie de desconcentração, de cansaço, de preguiça, que por vezes tentava me afastar dos meus compromissos e tirava-me o bom humor e a espontaneidade. Foi então que comecei a fazer caminhadas algumas vezes na semana, e senti, de imediato, uma mudança na rotina de minha vida.

 

Desde então, não sem sobressaltos, tenho costurado minha caminhada vocacional com oração, estudos e tempo para atividades físicas e culturais. Ao longo dos próximos meses vamos ver a importância da união dessa diversidade de atividades para minha vida de padre.

“Somos templos do Espírito Santo”

 A chave que possibilitou uma compreensão mais integral da minha vida de padre, como vocação ao serviço ao próximo pelo chamado de Deus, foi certamente a coragem de um fazer um trabalho de autoconhecimento. Sou grato aos meus formadores que, ao longo da vida de seminário, apresentaram-me excelentes profissionais da área da psicologia. 

 

 

Eles foram imprescindíveis para que eu entendesse, e hoje viva, uma relação de equilíbrio com meu ser. Obviamente nunca estamos prontos e manchas escuras sempre persistem em nosso interior, mas hoje elas são muito menores do que eram a vinte anos atrás.

 

Conhecer-me ajudou-me a compreender o quanto somos importantes para Deus. Como o dom de nossa vida é único e maravilhoso, e o quanto Deus espera que usemos o melhor de nossas potencialidades para tornar o mundo melhor. Minha espiritualidade sofreu uma mudança profunda, pois fui abandonando aquilo que hoje entendo ser uma espiritualidade superficial e medrosa, regada de culpas e de cobranças morais, para mergulhar na espiritualidade da encarnação do Verbo. Deus quis ser homem, quis ser carne, quis sentir o que sentimos e sofrer por nós e conosco. Como nos diz São Paulo, “quando completou o tempo previsto Deus enviou seu Filho, nascido de mulher e sujeito à Lei” (Gl 4,4). Isso é a chave da espiritualidade cristã. Deus nos mostrou, com o envio de seu próprio Filho, que somos chamados a ser santos pisando o barro desse mundo e dele tirando as forças que nos levam a nunca perder de vista o horizonte do Céus.

 

Com isso, a sensação verdadeira de ser “templo do Espírito Santo de Deus” (1 Cor 6,19) assumiu um caráter de imensa responsabilidade e alegria. Dentro em mim, nesse que eu sou, na minha corporeidade, habita de modo inefável o mesmo Espírito que movia o Cristo Jesus. Fomos elevados, em Cristo, à figura do Santuário Vivo de Deus, um “Santo dos Santos” de carne, ossos e suores.

 

Não é a toa que a teologia louva a capacidade humana de fazer de todo o seu ser uma possibilidade contínua de louvor e oração – “orai sem cessar”, nas palavras de São Paulo (1 Ts 5,17). Somos um corpo orante, e desde nosso concepção, até o instante último da morte, nosso corpo precisa estar pronto a dar louvores ao Senhor. Quando entendemos que é pela manifestação dos sentidos que o espírito se expressa, então paramos de demonizar a carne e passamos a buscar uma conversão verdadeira, que nos livre da corrupção e das artimanhas do desejo de querer fazer do corpo, que é “templo do Espírito”, um antro da ação das forças desumanizantes do mal. O corpo é para Deus e Deus se usa de nós para poder agir na transformação do mundo. Repito: quem compreende que a unidade integral entre corpo, mente e espírito insere-se no compreensão radical da espiritualidade cristã, redescoberta depois de tantas agressões culturais e históricas ao corpo humano.

 

Por isso, ser “templo do Espírito Santo”, é para mim motivo de responsabilidade amorosa. “Amai o seu próximo como a si mesmo” (Mt 22,39), nos ensinou Jesus. Ora, se eu não sou capaz de cuidar do meu próprio ser, dar ao meu corpo dignidade cristã, como posso expressar amor ao meu semelhante? Ah, com o desenrolar dessa nossa temporada de reflexões(serão 12 capítulos) iremos perceber que esse zelo pelo corpo não pode, sob pena de deturpação espiritual, transformar-se em busca vaidosa e narcisista por perfeição física. Não é disso que falamos aqui. Vaidades vazias são pecaminosas e desnecessárias, uma vez que todo corpo fenece e morre. Zelar pelo corpo é respeitá-lo e tirar dele a expressões diárias e contínuas de louvor ao Criador de todas as coisas.

 

Quando falamos “templo do Espírito Santo” entendemos que somos um corpo, e nele vivemos e por ele nos relacionamos com o Senhor da vida. Por isso, cuidados com alimentação, saúde, descanso, atividades físicas, amizades, lazer, higiene e tantas outras coisas nos humanizam quando direcionadas para o crescimento de meu ser integral, e não quando são modos opressores de construção de personalidade. O primeiro passo é o autoconhecimento, a aceitação de seus limites e de seu ser. Só então seremos capazes de integrar, sem traumas, corpo, mente e espírito.

 

Resumindo: como “templos do Espírito Santo” somos postos diante da necessidade de zelar por esta casa, evitando a corrupção dos sentidos, e equilibrando, saudavelmente, as três dimensões que compõe o ser humano na sua integralidade antropológica e teológica: corpo, mente e espírito. Eu tento, ainda que de modo imperfeito e cheio de falhas, fazer da minha de padre uma inspiração para pessoas que precisam animar-se na tarefa de se amar mais, se cuidar mais, ter mais zelo e amor pelo corpo que Deus deu a elas. Espero que a cada mês a gente veja o quanto Deus nos ama e nos quer redimir na totalidade de nosso ser!

 

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