sábado, julho 31, 2021
Temporada 01 episodio 02
3.5/5

Padre Evaldo Souza

Corpo e alma... e Espírito!

Temporada 01 - Episódio 2

“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5,23).

 

Olá amados de Jesus! Nosso segundo episódio, da teologia do corpo, quer dar luz a uma questão que nos intriga a todos, desde tempos mais antigos. Já o salmo 8 assim canta: “O que é o homem, para dele te lembrares? Tu o fizeste pouco menos que um deus, e o coroaste de glória e esplendor”. Sim, na descoberta da teologia do corpo temos que nos perguntar seriamente: quem somos nós? O que é o ser humano?

 

A ciência que estudo o ser humano é chamada antropologia (antropos = homem + logos = conhecimento). Como todas as ciências, a antropologia divide-se em muitos ramos diferentes, e deles surgem repostas diversas sobre a complexidade da existência humana. A teologia também tem uma resposta a dar sobre o ser humano. Nesse caso falamos de antropologia teológica. A fundamentação da antropologia teológica são as Sagradas Escrituras e a Tradição viva da Igreja. Com isso, quero dizer que a resposta sobre “Quem é o homem?”, se procurada à luz da fé cristã, se encontra nas páginas da Bíblia. Então, o que podemos aprender sobre o ser humano na Bíblia?

 

O que a Bíblia nos diz sobre o ser humano?

 

As Sagradas Escrituras nos dizem, em poucas palavras, que homem e mulher foram criados por Deus e são feitos “a sua imagem e semelhança” (Gn 1,27). Temos no livro do Gênesis dois relatos distintos da criação do ser humano, mas isso não invalida a premissa de que somos criaturas de Deus. Tampouco a tese bíblica quer “brigar” ou “sobrepor” as teses científicas da evolução dos seres vivos. São respostas diferentes para uma mesma realidade: as Escrituras não estão preocupados com as ciências biológicas, senão com a relação de amor e dependência que existe entre os seres criados e animados com o Criador. A antropologia teológica trata de princípios e valores, e nunca de biologia!

 

Outro aspecto a ser considerado a partir das Escrituras é a afirmação de que os seres humanos, ao contrário dos animais, têm sua estrutura vital formada por dois princípios, o material (corpo) e o divino (alma/espírito). Essa dupla composição não é, entretanto, uma composição dualista, já que a mentalidade judaica não admite essa separação: corpo e alma são dois modos de existir de um único ser humano. O corpo não existe sem uma alma, e a alma carrega em si a personalidade ímpar do corpo, mesmo depois de desligar-se os vínculos materiais. A alma é dom de Deus ao homem, e por isso, realidade imaterial que não se dissipa! Essa visão é parte da doutrina da Igreja: somos corpo e alma (Catecismo da Igreja Católica – 362-368).

 

Deus cria o corpo do barro e insufla nele o ruah, o hálito da vida! O termo ruah, que pode significar sopro ou vento, indica o corpo espiritual em Gênesis 2,7. Sendo assim, o 

 

 

espírito foi insuflado nas narinas do primeiro ser humano (Adão) e pelo espírito homem ganhou a alma eterna, tornando-se em definitivo a imagem e semelhança de Deus, afinal é pelo espírito que temos ligação com Deus. O sopro de Deus presenteia-nos com uma alma imortal!

 

Mas e o espírito? Qual a diferença entre espírito e alma? Aqui temos de fato uma discussão que está longe de ser unânime nas respostas. O problema existe porque na Bíblia muitas são as palavras para indicar realidades como corpo, carne, alma, espírito, Espírito, e é essa confusão vocabular gera discussões e polêmicas. Mas não vamos aqui entrar em detalhes ou pormenores! Mas é inegável que existe uma complexidade maior do que somente corpo e alma. Normalmente, na Bíblia, há uma concepção do humano articulada em três dimensões: carne (no hebraico, basar; no grego, sarx e soma), alma (no hebraico, nefesh; no grego psyche), espírito (no hebraico ruah; no grego pneuma). Mas a teologia da Igreja entende que alma e espírito muitas vezes se confundem, e que no fundo, o que as Escrituras afirmam, independente da palavra que se usa, é que o homem e muito mais do que uma realidade unicamente material.

 

Por isso, para o nosso estudo, basta saber que para a Igreja Católica, de modo simples, corpo e alma formam a totalidade da pessoa humana, que também recebe, como dom de Deus, a força do Espírito de Deus, pois somente Nele e que somos capazes de entrar em contato com as realidades divinas da revelação. O Espírito é a dada a nós pelo Batismo que “dialoga” com Deus. Mas o Espírito não se confunde com a alma, que é parte integrante do meu ser pessoa! É por meio da alma que o Homem reconhece o Espírito Santo e proclama a santidade de Deus.

 

É isso que São Paulo quer dizer quando fala aos Tessalonicenses – “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”(1Ts 5,23). Somos uma totalidade, somos humanos e divinos, somos muito mais do que simples animais!

 

Corpo e Alma – Integrar para melhor viver

 

Uma teologia do corpo, que pretenda nos ligar de modo harmonioso com Deus, a partir de nosso ser integral, precisa considerar que nós somos muito mais do que simples aglomerações celulares biológicas. Por isso, o cuidado que temos conosco mesmo, parte do respeito ao corpo, mas se estende ao desenvolvimento de nossa interioridade, tocada pelo amor de Deus em seus redutos mais secretos. Deus visita o coração do homem, ou seja, visita a nossa vida!

 

 

A Bíblia nos diz de forma clara que nosso corpo é a nossa casa terrestre. É o lugar onde moramos nesse mundo. A função básica do corpo é ter contato com o mundo físico. Quando quis revelar-se plenamente ao mundo, em Jesus Cristo, Deus precisou do corpo humano de Jesus (Filipenses 2,6-11) para se manifestar como salvador. Jesus teve de nascer de um com corpo físico – “nasceu da virgem Maria” – como professamos no nossa Creio. Cremos que Jesus é plenamente humano (nasceu da carne) e plenamente divino (foi gerado em Deus).

 

No Antigo Testamento temos a palavra “basar” que significa corpo material, corpo que morre, que vira defunto e pó. Deus cria o “basar” e depois insufla nele o “ruah”, o sopro da vida. “Basar” é o corpo enquanto falível e efêmero. Para o judeu não temos um corpo, mas somos um corpo, animado pelo espírito de Deus. Essa palavra “basar” foi traduzida para o grego (Novo Testamento) como “sarx”, conotando também a parte exclusivamente material do homem. Mas a língua grega conhece outra palavra para corpo, que é “soma”, e que significa o ser humano na sua totalidade, não só material, mas espiritual e psíquica. Quando falamos da teologia do corpo estamos no fundo falando da teologia “somática”, que envolve a harmonia de todo nosso ser (material, espiritual e psíquico) com nosso Criador!

 

Frequentemente, “soma” é utilizado para indicar a totalidade do ser humano, sendo que, em São Paulo, designa a pessoa humana enquanto circunscrita, na sua existência, a um determinado lugar a partir do qual vive a sua relação com Deus. Ao tratar da ressurreição, são Paulo estabelece uma clara distinção: a sarx (carne), à medida que significa o “homem velho”, é chamada a desaparecer (cf. Rm 6, 6); o corpo (soma), pelo contrário, é chamado à ressurreição (cf. Rm 8, 11; 1Cor 6, 14). Veja que o que ressuscitará será a nossa pessoa (“soma”), ou seja, a totalidade do nosso ser.

 

O Novo Testamento se mantem fiel à visão unitária de ser humano, entendido como totalidade indivisível. Os termos gregos usadas para alma e corpo – psyché, pnêuma/ sarx, soma – podem significar tanto um aspecto do homem quanto o homem completo; seguramente não apontam para um dualismo alma-corpo, próprio do pensamento grego.

 

Essa complementariedade de corpo e alma aparece muitas vezes nas Escrituras, sempre mostrando que somos únicos, com duas dimensões que se relacionam intrinsicamente: corpo e alma. Lembremos da afirmação de Jesus encontrada em Mt 10,28: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei, antes, aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena”. Veja que a alma é o que faz cada pessoa ser humana, isto é, o seu principio de vida espiritual, o seu íntimo. A alma faz com que o corpo material se torne um corpo vivo e humano. Através da alma, o ser humano torna-se um ente que pode dizer “eu” e permanece diante de Deus como um indivíduo inconfundível. Pela alma acionamos as dimensões espirituais da vida!

 

Segundo teologia oficial da Igreja, após a morte, a alma continua a existir de modo autônomo como elemento espiritual do ser humano, elemento este dotado de consciência e vontade; enfim, aquilo que é o próprio “eu” da pessoa humana, “esperando impacientemente o Cristo ressuscitado, para uma nova união entre espírito e matéria, união que se abre nele” (Ratzinger) . Retomaremos a unidade ‘alma-corpo’, só que transformada e glorificada.

 

Uma declaração da Congregação para a Doutrina da Fé de 1979 esclarece a doutrina católica da distinção entre corpo e alma. Segunda este documento, ”a Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o eu humano subsista, ainda que sem corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra alma, consagrada pelo uso que 

 

 

dela fazem a S. Escritura e a Tradição.  Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos sentidos. Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos”.

 

Por isso temos certeza que somos “templos de Deus”, pois em nossa pessoa (corpo + alma) Ele se manifesta e pode ser adorado e glorificado. No canto do Magnificat, Maria expressa com todo seu ser o amor e dedicação ao Deus Único e Salvador. Corpo e alma, a pessoa toda, reza e glorifica ao Senhor (Lc 1,46ss). Quando estamos integrados (somos pessoa, corpo e alma em harmonia), desperta-nos em nós a força do Espírito, que nos transforma cada dia na verdadeira imagem e semelhança do Pai, a fim de cumprirmos nossa missão.

 

Essa perspectiva integral do ser humano tem implicações práticas para a vida. A primeira é superar a ideia de “salvar a nossa alma”. A alma se salva sempre com o corpo, da qual é parte intrínseca. Por isso o corpo não deve ser visto como um fardo a ser carregado, ou simplesmente como um depositário da alma. Essa teologia dualista está superada, e cada vez mais se compreende que a redenção em Jesus Cristo é integral: nossa pessoa precisa ser redimida, e por isso, cuidar, respeitar, amar e zelar pelas relações que fazemos usando o nosso corpo são tão sagradas como aquelas que envolvem nossa inteligência, vontade e sensibilidade.

 

À luz da perspectiva integral do ser humano, o pecado não pode ser explicado de modo unilateral somente como o desejo da carne, mas tem de ser entendido como ato ou condição da pessoa toda, como decisão livre de afastamento de Deus. Também é necessário entender que a redenção inclui tanto os aspectos físicos como os psíquicos. Para a Igreja Católica, a vida após a morte preconiza tanto o corpo quanto a alma ressuscitados, ou em uma palavra, espera-se que a pessoa humana ressuscite em Cristo!

 

Padre Evaldo César de Souza, CSSR

 

Junho de 2021

 

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